terça-feira, 7 de setembro de 2010

Quanto “vale” esta dependência...

É comum ouvirmos proprietários de oficinas se queixarem de suas equipes, alegando que elas não têm iniciativa, postura profissional e tão pouco se comprometem com o trabalho realizado.
O que muitas vezes não fazemos é a leitura destas atitudes, dentro de uma rotina que nós mesmos criamos, favorecendo a manutenção destes comportamentos.
A informalidade ainda se faz presente em muitas empresas, em que a relação de trabalho não está clara para as partes envolvidas, ou seja, nem tudo é discutido ou esclarecido no ato da contratação. Assim, com o tempo e a convivência, vão surgindo conflitos decorrentes de expectativas frustradas de ambas as partes.
Sinto que existem muitas dificuldades em ver a oficina como empresa por parte dos proprietários e funcionários. A relação paternalista se manifesta nas mais diversas situações, tornando-se até mesmo subjetiva e meramente emocional e impulsiva.
Trabalhar tão próximo do “dono” faz com que muitos confundam o propósito em estar trabalhando para si ou para o outro. Conheço proprietários que até escondem seu carro novo, com medo de seus funcionários acharem que ele está ganhando muito dinheiro e não está repassando o que lhes é de direito.
Funcionários presos a uma relação de dependência gerada pelos conhecidos “valinhos”. Aqueles em que a empresa assume a prestação atrasada da geladeira, o remédio da farmácia, o aluguel e outros contratempos, esperando a tão sonhada compreensão pelas horas- extras não pagas. Nada contra ser solidário e ajudar um funcionário em uma situação de emergência. No entanto, fazer disto uma prática constante em nada o ajuda. Pois o mesmo torna-se um dependente, não responsável pelos compromissos que assume e, pior, não aprende a administrar seu orçamento, acreditando que o “patrão” sempre tem um pouquinho mais do que oferece ou paga.
O “patrão”, por sua vez, sente-se na posição de cobrar sempre um pouco mais também, afinal existe uma dívida de gratidão pendente, o que inconscientemente faz com que esperemos reconhecimento pelos nossos gestos, desapegados e humanitários.
Se desejamos ter equipes comprometidas, responsáveis e maduras, precisamos ensiná-las a serem responsáveis por si mesmas. Vocês devem conhecer a história dos senhores de engenho, na época da abolição da escravatura, que mantinham seus escravos através das compras feitas em seus empórios, localizados nas próprias fazendas, fazendo com que o chamado “funcionário” trabalhasse o mês todo para pagar o que já havia consumido. Falsa liberdade, fortalecida por vales, muito semelhantes ao que ainda vemos hoje.
Funcionários devem para empresa e vêm trabalhar desmotivados por saberem que não terão o que receber na data do pagamento. Muitas vezes julgamos estar ajudando o funcionário e a nós mesmos, quando na realidade estamos fortalecendo uma relação de dependência afetiva e comercial que poderá gerar danos maiores no futuro, no momento de uma rescisão por exemplo.

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